Equations are not being displayed properly on some articles. We hope to have this fixed soon. Our apologies.

Nunes Rodrigues, J. (2012). Ressonâncias bíblicas na obra de Machado de Assis:

ISSN 1751-3030  
Log in  
Register  
  1163 Articles and Observations available | Content last updated 20 August, 01:50  
Philica entries accessed 3 230 603 times  


NEWS: The SOAP Project, in collaboration with CERN, are conducting a survey on open-access publishing. Please take a moment to give them your views

Submit an Article or Observation

We aim to suit all browsers, but recommend Firefox particularly:

Ressonâncias bíblicas na obra de Machado de Assis: “Esaú e Jacó”.

Jessyca Nunes Rodriguesunconfirmed user (University of Sao Paulo)

Published in linguo.philica.com

Abstract
Esse Trabalho tem a função de analisar a obra Esaú e Jacó de Machado de Assis e seu diálogo com a bíblia. A escolha do tema se deve ao grande interesse pelas obras do autor e a observância de que o autor frequentemente usa textos bíblicos em suas obras. Com esse objetivo em mente o trabalho tentará analisar o diálogo bíblico na obra Esaú e Jacó, onde até mesmo o título remete o leitor ao universo bíblico. A pesquisa apresentada concentra-se em registrar, bem como, explicar o processo como a ressonância bíblica acontece na obra de Machado de Assis “Esaú e Jacó”, verificando o “como” e o “por que” machado utiliza recorrentes textos bíblicos em seu romance, e também busca refletir nos valores que os mesmos trazem a obra. Ela apontará os aspectos da obra Esaú e Jacó de Machado de Assis que dialogam com a Bíblia, relacionará de forma clara e precisa os textos bíblicos com a obra estudada, identificará e relacionará os valores que Machado quis abordar quando trabalhou com referências bíblicas em sua obra e enfatizará a importância dos textos bíblicos dentro da literatura brasileira.
Palavras - Chave: Machado de Assis; Obra “Esaú e Jacó”; Universo Bíblico; Textos Bíblicos; Literatura Brasileira.

Article body

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem a função de analisar a obra “Esaú e Jacó” de Machado de Assis e seu diálogo com a Bíblia. A escolha do tema se deve ao grande interesse pelas obras do autor e a observância de que o autor frequentemente usa textos bíblicos em suas obras.

Com esse objetivo em mente o trabalho tentará analisar o diálogo bíblico na obra Esaú e Jacó, onde até mesmo o título remete o leitor ao universo bíblico.

            Vários artigos têm relatado o interesse cada vez maior sobre a Teopoética, o que se evidência nas pesquisas de Salma Ferraz, Rubem Aguilar e Ana Maria Machado. Esses são autores citados constantemente nessa pesquisa e trazem em seus estudos a “A Influência da Bíblia na literatura”, ou seja, trabalham ligados a Teopoética.

Ao analisar a literatura de uma forma geral é possível notar temas bíblicos utilizados largamente em várias épocas de diversas formas, empregando diversos gêneros literários. Isso acontece também em várias áreas do conhecimento humano, como em filmes, danças, músicas, pinturas.

A presente pesquisa concentrar-se em registrar, bem como, explicar o processo como a ressonância bíblica acontece na obra de Machado de Assis “Esaú e Jacó”, verificando o “como” e o “por quê” Machado utiliza recorrentes textos bíblicos em seu romance, e também busca refletir nos valores que os mesmos trazem a obra. Ela apontará os aspectos da obra Esaú e Jacó de Machado de Assis que dialogam com a Bíblia, relacionará de forma clara e precisa os textos bíblicos com a obra estudada, identificará e relacionará os valores que Machado quis abordar quando trabalhou com referências bíblicas em sua obra e enfatizará a importância dos textos bíblicos dentro da Literatura Brasileira.

O artigo está assim organizado: no tópico I, descreveremos a intertextualidade de uma forma geral, quando e como ela acontece e sua importância. A questão da influência bíblica é apresentada a partir do tópico II e logo nos tópicos seguintes teremos uma visão geral da obra, ou seja, seu resumo e análise; e por fim, as considerações finais.

 

 

1 Intertextualidade – A influência de um texto sobre o outro.

 

A maioria dos textos, se não todos, carregam influências implícitas ou explícitas, poucas ou várias de outros textos. A influência de um texto sobre o outro é chamada de Intertextualidade. Kristeva, a quem se deve uma das primeiras e mais difundidas noções de intertextualidade, diz que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade.” (Kristeva, 1974, p.64)

É evidente que a intertextualidade está diretamente ligada ao “conhecimento de mundo” que o produtor e o receptor devem ter em comum. Como Eli Regina dos Santos em seu artigo afirma que “o leitor só irá notar a presença da intertextualidade se tiver leituras anteriores (dos originais), que fornecem subsídios na identificação dos cruzamentos dos textos, caso contrário podem não nota-los”. (Santos, 2009, p. 90)

O conhecimento de mundo é individual, cada pessoa tem uma maneira de ver e ler o mundo que os cerca. Manguel (1997) “nos leva a compreender que a leitura não está só nas páginas de um livro, não está restrita as letras impressas em um papel. Cada pessoa tem uma ou variadas formas de se ler.” Por exemplo, “o agricultor lê o céu para prevenir-se da chuva. O poeta lê o coração para escrever seus versos. A mãe lê no semblante da criança sua expressão de alegria ou tristeza. Em todos esses gestos está a leitura”. (Idem, p. 91)

Assim, cada texto é como um elo na corrente de produções verbais; Cada texto retoma textos anteriores, reafirmando uns e contestando outros. 

Um texto é feito de múltiplas escrituras, elaboradas a partir de diversas culturas e ingressante em uma relação mútua de diálogo, paródia, contestação; mas há um lugar em que esta multiplicidade é percebida, e este lugar (…) é o leitor: o leitor é o espaço em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações que constituem a escritura: a unidade do texto não reside em sua origem, mas em seu destino, e este destino não pode ser pessoal: o leitor é alguém sem história, sem biografia, sem psicologia; ele é, simplesmente, um qualquer que articula, em um único campo,  todos os traços a partir dos quais se constitui a escritura (Barthes, 1984, p. 69).

Segundo os PCN (2001, p. 41) de Língua Portuguesa, a formação de um leitor supõe:

Formar alguém que compreenda o que lê; que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos, que estabeleçam relações entre o texto que lê e outros já lidos, que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos.

Sabendo desta e de outras maneiras pelas quais o leitor consegue desvendar o mundo da leitura identificando o diálogo dos textos, “o texto passa a ser um jogo de ‘esconde-esconde’ com o leitor uma espécie de esfinge, pronto para ser decifrado”. (Santos 2009, p. 95)

A intertextualidade também se faz presente nas artes em geral, como por exemplo, nas canções, danças, escultura, pintura e na literatura, bem como nos provérbios, na linguagem dramática, cinematográfica, nas charges e cartuns ao retratar de modo contundente sobre assuntos relacionados à política, dentre outros exemplos.

O ponto importante sobre intertextualidade nessa pesquisa é analisá-la na literatura, pois, de todas as artes em geral que utilizam a intertextualidade, a literatura trabalha diretamente com ela. Seus autores, seus textos, seus poemas e boa parte de sua estrutura abusa da forma intertextual para com seus leitores. Laurent Jenny afirma que “fora da intertextualidade, a obra literária seria muito simplesmente incompreensível, tal como a palavra duma língua ainda desconhecida”. (1979, p. 5)

Em meio à literatura, têm-se vários autores que trabalham com a intertextualidade, representando tal aspecto, cita-se o célebre Machado de Assis, que em sua obra “Dom Casmurro”, cita Otelo, personagem shakespeariano. Na mesma obra, o autor trabalha a intertextualidade bíblica, assim como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Esaú e Jacó”, dentre outras.  Esse fato também acontece com Gonçalves Dias ao ser parodiado por Oswald de Andrade. Eli Regina Dos Santos lembra que “a intertextualidade se torna paródica, quando nessa relação se introduz a ironia”. (2009, p.94)

A paródia é uma das formas de intertextualidade mais usadas no meio literário e na propaganda. No desenvolvimento dessa pesquisa, a paródia estará em destaque. Por isso, a importância de esclarecer essa forma de intertextualidade. Santos (2009, p. 94-95) em seu artigo declara que:

Verificou-se a presença da intertextualidade na literatura, na propaganda, na televisão em níveis mais ou menos ficcionais, numa relação dialógica entre textos, sejam por meios de citações ou de paródias. (…) É oportuno lembrar, que a intertextualidade se manifesta pela relação dialógica entre os textos, que pode ocorrer por alusão, por imitação, por citação, por inversão e tantos outros procedimentos.

 

1.1  Paródia

 

Trata-se de uma composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema ou/e a forma de uma obra séria. O intuito da paródia consiste em ridicularizar uma tendência ou um estilo que, por qualquer motivo, se torna conhecido ou dominante.

Exemplos de Paródias:

Como exemplo, o poema "Canto de Regresso à Pátria", de Oswald de Andrade, que parodia a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmares/Onde gorjeia o mar/Os passarinhos daqui/Não cantam como os de lá”.

O uso da Intertextualidade funciona como um complemento para que o leitor faça a associação de ideias com outros textos.

Vale salientar que o uso da Intertextualidade deve ser equilibrado para não saturar o texto. Silva (2003, p. 216) declara que “ainda que seja importante para o texto, a intertextualidade não deve ser supervalorizada: caso o seja, ela se torna supérflua, excessiva, nociva”.

Assim sendo, “a intertextualidade refere-se a algo diferente de como os autores influenciam outros autores, ou como os autores deliberadamente tomam emprestado, citam ou mesmo plagiam o trabalho de autores anteriores”. (ALLEN, 2001, P.21)

Há “duplicidade” na Intertextualidade, ou seja, no mesmo texto encontramos algo do presente e referências do passado. Segundo Allen (2001, p.24) declara que:

Tal “duplicidade” provém sempre da contaminação do passado ou de “outro lugar” com o presente, isto é, provém do fato de que nossas expressões são sempre possuídas pelo já dito, pelo já escrito. É evidentemente crucial que não permitamos que esse insight cegue-nos para o momento presente, a situação presente, o que os outros críticos chamam de “contexto”.  A “duplicidade” da intertextualidade só existe por causa do choque do contexto presente com palavras e alocuções de outros contextos. Isto quer dizer que não estamos lidando com uma pura e total diversidade quando nos confrontamos com a intertextualidade. Sem um contexto específico para a expressão, não pode haver “duplicidade”, não pode haver uma “dupla voz” no discurso: sem um contexto específico para a expressão, não pode haver intertextualidade.

De acordo com a citação a cima deduz-se que a “duplicidade” em um texto é proveniente de dois fatores: O encontro do passado com o presente ou com outro lugar e a ligação dos contextos, o atual com o anterior ou proveniente de outro lugar.

 

2 A influência da Bíblia na Literatura

 

Os pesquisadores da Literatura afirmam que a Bíblia é um livro de grande influência nas artes e nos costumes da sociedade. Ela pode ser a fonte tanto de obras literárias quando de obras musicais, cênicas e também de costumes da sociedade.

Seguindo essa linha de raciocínio Ana Maria Machado (2002, p. 39) afirma que muitas expressões usadas hoje pela sociedade consistem do conhecimento obtido através da leitura bíblica:

Ao transportar um bebê num moisés, saberá por que o cestinho tem esse nome. Quando encontrar expressões como “separar o joio do trigo”, “lavar as mãos”, “mudar da água para o vinho” ou “dar a outra face”, ou quando por acaso ler num jornal uma referência ao farisaísmo ou a sepulcros caiados, saberá exatamente  a que o texto está fazendo alusão. Reconhecerá as referências ao bom pastor ou ao bom ladrão, ao bezerro de ouro, ao grão de mostarda ou à folha de parreira. Conhecerá o que é uma mulher forte, entenderá por que deixar vir às criancinhas.

Conforme visto no texto citado essas expressões largamente usadas no dia-a-dia tem uma origem comum: as páginas do livro sagrado.

Na verdade, a Bíblia é o livro mais lido e estudado do mundo ocidental. Conforme declara Aguilar (2003, p.9) “ela é a obra que tem influído mais o desenvolvimento da cultura, em amplos setores da humanidade.” Portanto, grandes obras da literatura mundial foram escritas a partir do pressuposto (consciente ou inconsciente) que os escritores estão familiarizados com a Bíblia. Neste diálogo com o livro sagrado, o escritor já está contando com a competência do leitor para o entendimento da obra. Quando um leitor identifica em uma obra a ressonância de uma outra já lida por ele, torna-se mais fácil a compreensão dessa leitura.

 Aguilar (Idem, p.17) mais adiante afirma que “Nenhum livro tem inspirado mais a produção literária como a Bíblia. Foi através da Bíblia que o poeta latino Virgilio recebera os raios inspiradores que sua mente os refletiu no poema épico a Eneida”.

Ao estabelecer o diálogo com o texto bíblico o escritor não está anunciando uma profissão de fé, pois o seu contato com o livro sagrado situa-se no espaço da literatura. É na Bíblia que o escritor encontra palavras, frases e episódios que podem figurar dentro da sua obra.

Miles (1997, p.27) relembra “que a Bíblia é inquestionavelmente uma extraordinária obra de literatura, e o Senhor Deus um personagem dos mais extraordinários”.

Debruçando-se sobre a temática da influência da Bíblia sobre as artes, Aguilar (2003, p.10) afirma: “Foi através da ligação intensa com a bíblia que Willian Shakespeare, o príncipe das letras anglicanas usou as palavras ricas em expressões das Escrituras Sagradas, mesmo que seus dramas e comédias não sejam especificamente baseados em temas bíblicos”.

Em se tratando do estudo da Bíblia como literatura, divisamos dois grupos: no primeiro estão teólogos e biblistas que utilizam a teoria literária, em uma visão técnica ou mais popular, para a análise de textos bíblicos. No outro grupo estão os críticos literários que fazem incursões pela literatura bíblica utilizando seus instrumentos de análise. “Por outro lado, tanto a Teologia quanto a Literatura têm o homem como ponto de partida e chegada, portanto Deus e o Homem estão inseridos na história” Afirma Ferraz (2012, p.12).

Os cristãos recebem influência da Bíblia. No mundo ocidental, a Bíblia confunde-se com a própria cultura ocidental. “Independentemente de qualquer crença religiosa, o simples fato de vivermos numa nação que faz parte do Ocidente judaico-cristão já nos torna herdeiros da linhagem bíblica.” Afirma Ana Maria Machado (2002, p.33).

Machado de Assis, escritor brasileiro, também foi até à Bíblia buscar inspiração para o romance "Esaú e Jacó". Embora os nomes dos gêmeos protagonistas sejam Paulo e Pedro, o enredo sobre a rivalidade entre os dois irmãos tem inspiração clara na estória dos filhos gêmeos de Isaque. Que, assim como no romance de Machado, Pedro e Paulo eram opostos desde dentro da barriga da mãe. Rebeca, esposa de Isaque, sentia que os filhos seriam rivais quando os brigavam dentro de seu ventre. Quando a personagem “Natividade” vai até uma cartomante perguntar por que seus filhos brigam desde bebês, ela fica sabendo que seus filhos não se entendiam dentro de sua barriga, portanto, estavam destinados a rivalidade.

Esta pesquisa tenciona reconhecer a influência da Bíblia sobre a obra machadiana. Este escritor é reconhecido como o autor da literatura brasileira que mais dialoga com a Bíblia em suas obras. A crítica literária afirma que essas citações bíblicas não se dão pelo fato do escritor ter fé ou ser religioso. Vale salientar que as citações bíblicas em Machado de Assis sempre são utilizadas com fins sarcásticos. Por mais que suas citações tenham esse fim, provavelmente ele irá tirar valores morais para enriquecer a trama.           

Em seu artigo Oliveira (2010, p. 79) afirma que:

São recorrentes os diálogos entre a obra machadiana e o texto das escrituras Sagradas, “ou de temas oriundos destas.” Podem-se citar alguns títulos e logo se percebe a presença bíblica pelo título. Como nos conto “Adão e Eva” e “A igreja do Diabo”, bem como no romance “Esaú e Jacó”.

Portanto, a Bíblia exerce grande influência em escritores, crédulos e incrédulos, sabendo dessa influência, é preciso investigar qual é o verdadeiro motivo de tantas obras com citações bíblicas, bem como, pesquisar em cada caso, o que de fato o autor quis significar ao fazer uma alusão a textos bíblicos.

 

3 Análise da Obra – “Diálogo entre os Textos”

A análise da obra provavelmente seja a parte principal da pesquisa apresentada, pois é através desta que descobriremos os diálogos presentes, sendo eles explícitos ou implícitos, o fato é que a obra analisada traz diálogos com a Bíblia e é isso que observaremos nesse tópico.

O foco principal do diálogo entre a obra de Machado de Assis “Esaú e Jacó” e a Bíblia é o próprio nome da obra. Sabe-se que a história bíblica encontrada em Gênesis conta sobre os gêmeos chamados Esaú e Jacó, os quais brigaram desde o ventre materno para conseguir a primogenitura. Assim conta a Bíblia: “Na barriga dela (Rebeca esposa de Isaque) havia gêmeos, e eles lutavam um com o outro. Ela pensou assim: ‘por que está me acontecendo uma coisa dessas? ’ Então foi perguntar a Deus o Senhor e Ele respondeu: ‘No seu ventre há duas nações; você dará à luz dois povos inimigos. Um será mais forte do que o outro, e o mais velho será dominado pelo mais moço.”

A narrativa deixa claro que a mãe não teve uma gestação sossegada. Logo no primeiro capítulo encontramos essa afirmação: “Natividade, que não tivera a gestação sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos extraordinários, repetidos, e dores, e insônias…” (p. 20), no IV capítulo também encontramos que “a gestação não fora sossegada” (p. 25) e no capítulo da “Maternidade” é citado que “a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente nas últimas semanas”. Levando assim, o leitor a comparar a história aqui estudada com a história bíblica, esse é o primeiro ponto de diálogo que o autor Machado De Assis trabalha em sua obra.

O ponto diferencial entre a obra machadiana e o Gênesis está na diferença física que existe entre os gêmeos Esaú e Jacó bíblicos e os gêmeos da obra Esaú e Jacó. A Bíblia diz que quando “chegou o tempo de Rebeca da à luz, ela teve dois meninos. O que nasceu primeiro era vermelho e peludo como um casaco de pele; por isso lhe deram o nome de Esaú”. O segundo era liso como está escrito em Gênesis 27: 16 “Com a pele dos cabritos ela cobriu as mãos e o pescoço de Jacó, que não tinha pelos.” Assim percebe-se que eles eram bem diferentes fisicamente um do outro. Porém, na obra machadiana as diferenças não existem. No capítulo VIII encontramos que eles tinham “o rosto comprido, cabelos castanhos, dedos finos e tais que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter gênio diferente” (p. 35), mas por hora fisicamente era iguais.

A questão da primogenitura é importante em ambos os casos, como o próprio Machado de Assis coloca em um diálogo encontrado no capítulo XIV entre Aires, Plácido e Santos sobre as brigas dos garotos: “Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isto é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a providência a esconde da notícia humana…” deduziram que as brigas se davam, talvez, por causa espiritual. E continuam: “Por exemplo, se as duas crianças quiserem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Criador. Aí está um caso de conflito, mas de conflito espiritual, cujos processos escapam a sagacidade humana. Também podia ser um motivo temporal. Suponhamos a necessidade de se acotovelarem para ficar melhor acomodados; é a hipótese que a ciência aceitaria; isto é, não sei… Há ainda o caso de quererem ambos a primogenitura.” (p. 48) E esse último caso define e iguala a briga dos gêmeos bíblicos com os machadianos, ela gira em torna da ‘Primogenitura’.

O segundo ponto importante de diálogo entre a Bíblia e a obra “Esaú e Jacó” é o próprio nome dos gêmeos machadianos. Eles se chamam Pedro e Paulo, justamente porque em uma missa foi revelado à tia dos garotos, que ainda não tinham nome, o nome dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo. A obra traz consigo que a causa da rivalidade também podia advir dos nomes apostólicos, pelo fato de que os apóstolos Pedro e Paulo não se davam bem. Como afirma no capítulo XV “já o fato de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma rivalidade, porque esses dois apóstolos brigaram também.” (p. 50) Seguindo a obra machadiana, encontramos a própria passagem bíblica que destaca o fato da briga dos apóstolos. Que é encontrada na Epístola de S. Paulo aos Gálatas, Capítulo 2, versículo 11 que contem: “Porém, quando Pedro veio para Antioquia da Síria, eu fiquei contra ele em público porque ele estava completamente errado.” Esse diálogo acontece pelo fato de que Machado de Assis quis atribuir outro motivo para a causa da rivalidade, que é trabalhada durante toda a obra.

No capítulo XVI, que tem como título “Paternalismo”, o autor fala um pouco sobre amor e abre uma brecha para mais uma vez citar a Bíblia, ao falar sobre o amor encontrado no Evangelho de S. João 1: 1 onde está escrito: “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus.” Machado então paródia o verso colocando na obra a seguinte citação: “No princípio era o amor, e o amor se fez carne”. (p. 52)

Logo chegasse ao capítulo XXXIX, onde o autor cita a desobediência do homem no paraíso para descrever e comparar a liberdade de um inocente que era acusado na praça por todos e a liberdade que Adão, personagem bíblico, perde ao desobedecer às ordens do Senhor. É encontrada na obra a seguinte citação: “Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que, aliás, lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição.” Fazendo, mais uma vez, o diálogo com a bíblia ligando esse trecho com a história da Criação encontrada em Gênesis.

Continuando a análise dos diálogos, tem-se um capítulo da obra, o XLVII, em que seu título é um diálogo direto com a Bíblia, pois se chama “S. Mateus 4, 1-10”. É um livro encontrado nos evangelhos de Jesus na Bíblia Sagrada e os versos citados são sobre a tentação de Jesus no deserto. O autor faz essa ligação para citar a grande tentação que um personagem sofre através de sua esposa, D. Cláudia. Na obra Machado faz citação direta com a Bíblia colocando ali o que de fato está escrito nas Sagradas Escrituras. Para afastar a tentação de si, o personagem faz a seguinte ordem em pensamento “vai-te, Satanás; porque escrito está: Ao senhor teu Deus adorarás, e a ele servirás”. ‘e seguiu-se como na escritura’: “então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram”. (p. 109)

No mesmo capítulo (LI) o autor Machado de Assis trabalha o diálogo com a Bíblia de duas maneiras. A primeira é encontrada no livro de Colossenses 3 versículo 13 quando trabalha em cima da questão do perdão, ao citar na obra: “Perdoai-vos uns aos outros, é a lei do Evangelho.” (p. 120) A segunda está ligada as Bem-aventuranças que são encontradas no evangelho de S. Mateus 5 versículo 3 em diante. O autor faz um paródia com as bem-aventuranças citando “Bem-aventurado os que ficam, porque eles serão compensados” quando quis se referir a ausência de Paulo na disputa pelo amor de Flora.

Por fim, uma das últimas formas de diálogos encontradas na obra machadiana com a Bíblia se refere ao capítulo XCVII cujo título é “Um cristo particular”, onde o autor cita que “Jesus Cristo não distribui os governos deste mundo.” (p. 210) Se refere a esta frase quando Flora triste gostaria de achar um lugar para seu pai governar. Na Bíblia, em S. João 18: 36 está escrito: “Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo! Se o meu reino fosse deste mundo, os meus seguidores lutariam para não deixar que eu fosse entregue ao líderes judeus. Mas o fato é que o meu reino não é deste mundo!” ou seja, o autor provavelmente cita a afirmação da página 210 tendo como referência o texto bíblico dos Evangelhos.

Por fim, conclui-se que absolutamente a obra machadiana “Esaú e Jacó”, possui não um, mas vários diálogos e referências bíblicas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa apresentada tinha como principal foco a análise da obra “Esaú e Jacó” de Machado de Assis e suas referências bíblicas voltadas para o título da obra. Ou seja, a pesquisa estava limitada ao título e a história bíblica de Esaú e Jacó. Porém no decorrer dos estudos a análise se expandiu. Ao perceber que o autor Machado de Assis não se limitou somente aos gêmeos bíblicos e que suas citações e referências vão além dos Gênesis.

Estudando Machado de Assis e sua intenção de utilizar textos bíblicos em suas obras, passa-se a conhecer melhor a finalidade de suas obras, além de perceber que o mesmo é um grande leitor e admirador de textos bíblicos, e que utiliza esses textos em suas obras para enriquecimento das tramas.

Ao adquirir um conhecimento mais profundo sobre teopoética, acredita-se ser essa uma área de grande relevância para a Literatura Brasileira. Através dela, verdades bíblicas sobre a obra “Esaú e Jacó” foram descobertas deixando, assim, um caminho aberto para que outras obras do mesmo autor ou de autores da vasta Literatura Brasileira sejam também analisadas e conhecidas.

A intenção da pesquisa é fazer com que aconteça o crescimento dessa área dentro do meio acadêmico de tal forma que influencie estudantes e/ou leitores a utilizarem a teopoética como uma forma de adquirir conhecimento e aprimorar seus estudos. Fazendo assim, com essa análise se torne comum na Literatura Brasileira.

 

Referências Bibliográficas

A Bíblia Sagrada. 2ª ed. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

 

ASSIS, Machado De. Esaú e Jacó. 1. Ed. Rio de Janeiro: Klick, 2006.

 

FERRAZ, S.F. As face de um Deus na obra de um Ateu: José Saramago. 2. Ed. Blumenau: EDIFURB, 2012.

 

AGUILAR, R.A. Miscelânia. 1. Ed. Rio de Janeiro: ADOS, 2003.

 

OLIVEIRA, Davi De. Acta científica; Considerações sobre a paródia bíblica da criação do mundo no conto machadiano “Adão e Eva”. São Paulo; V.1, N.18, P. 73-85, 2010.

 

MACHADO, Ana Maria. Como e por que Ler os Clássicos Universais Desde Cedo. 1. Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

 

LIMA, Roberto Sarmento. Discutindo Língua Portuguesa; Trapaças Machadianas. São Paulo, V.1, N. 14, P. 28-31, 2008.

 

SILVA, Marcio Renato Pinheiro. Acta Scientiarum. Leitura, texto, intertextualidade, paródia. Maringá; V. 25, N. 2, P. 211-220, 2003.

 

BARTHES, R. Le bruissement de la langue. Paris: Seuil, 1984.

 

KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974.

 

ALLEN, Graham. Revista Pátio; A intertextualidade e sua “dupla” origem. Rio Grande do Sul; V.4, N. 15, P. 21-24, 2001.

 

BAKHTIN, M.M. Speech genres and other essays. Texas: University of Texas Press, 1986.

 

SANTOS, Eli Regina Nagel. Revista da UNIFEBE; Intertextualidade e interdiscursividade: vestígios na literatura e na publicidade. Santa Catarina; N.7, P. 89-97, 2009.

 

JENNY, Laurent. Poétique; A estratégia da forma. Portugal; N. 27, P. 5-23, 1982.

 

Intertextualidade. In: UFRJ. 2005. Disponível em:                                                                   

< http://acd.ufrj.br/~pead/tema02/intertextualidade2.htm>. Acesso em: 14/10/2012.

 

Intertextualidades. In: Trabalhos Acadêmicos. In: Blogspot. 16 de Abril de 2012. Disponível em:                                                                                                                                        <http://apoioerevisao.blogspot.com.br/2012/04/intertextualidade.html>. Acesso em: 15 de outubro de 2012.

 

MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.





Information about this Article
This Article has not yet been peer-reviewed
This Article was published on 27th November, 2012 at 22:07:28 and has been viewed 5619 times.

Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution 2.5 License.
The full citation for this Article is:
Nunes Rodrigues, J. (2012). Ressonâncias bíblicas na obra de Machado de Assis: “Esaú e Jacó”.. PHILICA.COM Article number 358.


<< Go back Review this ArticlePrinter-friendlyReport this Article



Website copyright © 2006-07 Philica; authors retain the rights to their work under this Creative Commons License and reviews are copyleft under the GNU free documentation license.
Using this site indicates acceptance of our Terms and Conditions.

This page was generated in 0.3031 seconds.